
A ideia partiu de um grupo de mães de alunos da Academia de Música Banda de Ourém que organizaram, na passada sexta-feira, um jantar de homenagem ao maestro Mortágua, no restaurante Ponto de Encontro e a que compareceu cerca de uma centena de pessoas.
Raquel Ferreira, Isabel Vieira, Maria Silva e Ana Silva, afirmam ter esperado que a Academia tivesse tomada a iniciativa de ter avançado com um jantar de despedida mas, afirmam, como tal não sucedeu, decidiram avançar.
A motivação para esta homenagem, dizem ser «a dedicação do maestro aos jovens de Ourém», e recordam que «foi ele que deu início à banda de Ourém. Apontam a «paciência» e o «carinho» que o maestro sempre terá dedicado «às crianças», entregando-se «de corpo e alma ao que fazia». Acrescentam que «ele sozinho dava conta do recado» e que «agora estão lá vários e a desorganização parece ser grande», de acordo com «os lamentos dos miúdos».
Por isso, estas mães, lamentam que a Academia tenha «mandado embora» o maestro, «sem lhe fazer uma homenagem» que, «como oureenses», não quiseram deixar de lhe prestar. Acusam a direcção dizendo que lhe «ficou mal mandar embora o maestro sem comunicar aos pais e restantes membros da banda».
Quanto ao maestro, afirma uma «alegria enorme» que «excedeu as minhas expectativas». Isto porque, afirma, pensava tratar-se de um jantar com menos gente e diz que também não contava com a presença institucional da Câmara, Assembleia Municipal e Junta de Freguesia.
Os presidentes destes três órgãos afirmaram estar ali «para agradecer o trabalho desenvolvido pelo maestro» ao longo de todos os anos, tendo ajudado, assim, «a nossa juventude a criar o gosto pela música. Para Deolinda Simões, «se hoje há boas escolas de música em Ourém, isso acontece porque um dia houve quem incutiu nos jovens o gosto pela música e o maestro Mortágua foi uma dessas pessoas».
O maestro afirma-se comovido com esta iniciativa de pais, dizendo que ela competiria à própria Banda que «não está aqui» afirma, acrescentando que «também não faz falta», deixando evidente o mau-estar existente. Isso mesmo é confirmado logo a seguir com o maestro a referir a «muita mágoa pela forma como fui empurrado da Academia de Música. Fui posto fora de casa», afirma, «por excesso de zelo», diz. A razão que lhe terá sido apresentada prendia-se com a aposta na renovação e o maestro entendeu-o como um modo de lhe dizer «estás velho, vai-te embora». Mas considera que «ainda tinha muito para dar à Banda» e afirma que a atitude da direcção terá sido «um golpe também para os jovens, a quem foi difícil aceitar o modo como as coisas correram».
O maestro vai mais longe e diz que, embora reconhecendo o poder da direcção para tomar a decisão de o destituir, «julgo que se devia ocultar o grupo de trabalho e nada disto foi feito. Suponham que a maioria ou até todos os executantes tomavam a atitude que alguns dos mais velhos tomaram e demitiam-se. Ou a Banda acabava ou a direcção teria de se demitir…» e, acrescenta «sem querer ser amigo da onça, gostava que isto acontecesse». Porque, afirma, «seria uma lição para quem toma decisões destas».
Em relação à entrega dos instrumentos por parte de alguns executantes, quando confrontado com o facto destes terem acabado por regressar, o maestro diz que tal só sucedeu «porque o senhor presidente andou atrás deles e, após muitos pedidos, e porque gostam muito de música, voltaram».
Diz ainda que não entende esta atitude porque «tudo estava a correr bem e a banda tinha prestígio». A única razão que afirma encontrar para o seu afastamento «é a má formação das pessoas que falam com mau modo e de forma arrogante, quer para mim quer para os miúdos», acusa, referindo-se ao presidente da colectividade, a quem aponta o dedo dizendo que mesmo «sem conhecimentos de música, a direcção queria escolher os temas e a situação foi-se deteriorando».
Para Ourém, o maestro deixa a mensagem de que «as pessoas de Ourém são maravilhosas. Aqui encontrei uma juventude que, sem ser diferente das outras, para mim não há igual. E sinto que todos gostam de mim». Considera ainda que «o grupo de trabalho estava a funcionar bem. Só quem não gostava do maestro era a direcção, em particular o seu presidente».
Por isso afirma desejar que «a música continue a prestigiar o concelho de Ourém», já que «não gostaria de ouvir dizer que as coisas morrem porque há aqui muito trabalho, de muitos anos».
Defende, por isso, a necessidade de maior envolvimento dos sócios, sobretudo em períodos eleitorais porque, diz, quando é chegado o momento de eleger, «são sempre os mesmos que se auto-substituem e que acabam por vir depois a tomar decisões sem ouvir o grupo de trabalho» e deixa o apelo «par que todos os sócios se empenhem mais na vida das colectividades e saibam dizer não a determinado tipo de situações, para bem do bom funcionamento de um grupo de trabalho dentro de uma colectividade. É que, conclui, «o inimigo do aperfeiçoamento, do sucesso, do bom nome de uma terra e da sua gente, é o comodismo».
Face às acusações directas à direcção da associação em geral e ao seu presidente em particular, o Notícias de Ourém ouviu Avelino Subtil eu começou por dizer que «há questões que a direcção prefere deixar passar para não ter que discutir em público questiúnculas privadas».
No entanto esclarece que «a direcção presta contas dos seus actos aos seus associados em assembleia geral e não aos pais em particular». E no que toca ao funcionamento interno, diz que «cada grupo, nos termos do regulamento interno, elege um representante que é ouvido em reunião de direcção, o que aconteceu neste caso também».
Sem por em causa o trabalho desenvolvido pelo maestro Mortágua ao longo dos anos, Subtil considera a evolução dos tempos para dizer «ele teve um trabalho positivo e meritório mas as coisas mudam, evoluem, e a formação hoje tem outras exigências. Este ano havia alterações maiores devido aos novos horários escolares». Por isso, afirma, «falámos com o maestro, explicando-lhe que face à concorrência que hoje existe, há que adequar a oferta, acompanhando os tempos». Diz que «propusemos-lhe sir de forma honrosa, com uma festa de homenagem», mas «ele não aceitou».
Avelino Subtil não aceita que se diga ter-se tratado de uma posição pessoal e considera isso como um insulto para os restantes elementos da direcção como se «eles fossem pessoas incapazes de tomar decisões». O presidente da colectividade diz que de facto a situação havia sido devidamente discutida e a decisão assumida por todos mas sempre de forma cuidadosa face ao melindre de que se revestia. Segundo Subtil, o maestro não entendia a nova realidade e a necessidade de «dar um salto» do ponto de vista formativo. E diz que a partir do momento em que o maestro recusa sair de forma airosa, com homenagem, «havia que tomar uma atitude». E se há mágoa por parte do maestro face a esta atitude, também a há por parte da direcção que não entende que, na véspera do dia em que lhe ia ser feito o pagamento, o maestro se tenha dirigido à Banda e« com a sua chave, escolheu e levou o material que quis», o que considera «um abuso de confiança». Diz ainda o presidente da colectividade que «não fica bem a alguém que é pago para fazer um serviço, desafiar os executantes a abandonarem a associação e vir falar em prepotência».
Quanto a intromissões na escolha de reportório, Avelino Subtil garante que apenas uma vez terá havido um desaguisado, aquando da gravação do CD comemorativo dos 75 anos da Banda. Explica que este CD contava com participação dos cinco grupos da Academia, sendo que a cada um foram atribuídos 12 minutos no CD. Assim foi pedido aos maestros que escolhessem temas tendo em conta o tempo de que dispunham. Só o maestro Mortágua terá dito que o tempo não lhe chegava para a peça que queria gravar e que se não lhe dessem mais se limitaria a gravar uma marcha.
Subtil diz que acabou por haver negociações e apesar da direcção ainda ter posto a hipótese de lhe impor reportório, as coisas acabaram por se resolver a contento do maestro Mortágua mas para tal houve outros grupos que saíram prejudicados e ficaram com menos tempo de gravação. E apesar de ter cedido, Avelino Subtil fez saber ao maestro que a direcção não gostou que tal imposição tivesse sido feita, até porque, afirma, «é preciso ter espírito de abertura e saber reconhecer também o trabalho dos outros».
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